LIVRO 151
"De como s gente se torna o que a gente é"
"Ecce homo" consta ter sido escrito em 1888, a última obra do filósofo e publicado somente em 1908.
Ele fala de sua vida, da alimentação, das enfermidades.
Ele relembra com carinho o pai, que morreu cedo e era pastor. Sendo pastor, só poderia pregar as boas novas cristãs.
Nesta obra, Ecce Homo, porém, o Autor explica a origem de algumas de suas obras e crenças, particularmente de "Assim falou Zaratustra" que coloca como sua obra-prima, o seu próprio "evangelho" tal a critica incansável que faz ao cristianismo e aos sacerdotes católicos.
Para ele, a religião tolhe a vida livre dos fiéis que ficariam a mercê de dogmas e conceitos que os acorrenta. E dos religiosos.
E, no tocante ao "desprezo à vida sexual", o conceito de impuro, "é um crime contra a vida em si".
E, nesse diapasão, Nietzsche despreza os caridosos, os que praticam o "bem", à solidariedade, a compaixão.
Então, as objeções ao cristianismo vão à exaustão.
Será ele, então, um ateu apenas para o Deus cristão?
Não parece. De uma frase de Stendhal, que teria lhe arrancado "a melhor piada": "A única desculpa de Deus é o fato de não existir"... Eu mesmo disse em algum lugar, qual foi a maior objeção à existência feita até hoje? Deus..."
Era admirador ardoroso e amigo do compositor de Richard Wagner, com quem rompeu não só pela obra Parsifal, na qual o compositor inseriu temas cristãos. É que ele recebeu um "belo exemplar" do texto de Persifal com a dedicatória do compositor: "de Richard Wagner, Conselheiro Eclesiástico, a seu querido amigo Friedrich Nietzsche". E mais: "O que nunca perdoei a Wagner? O fato de ter concedido com os alemães... o fato de ter descido à condição de alemão imperial... Até onde a Alemanha alcança, ela deteriora a cultura."
E nessa linha, "a gente se torna o que a gente é". Uma filosofia amarga, porque ele não enveredou, pelo menos que divulgasse, para uma reflexão sobre fragilidade da existência, e o seu fim para o "nada". Principalmente em "Zaratustra" ele engendra o "super-homem" (a melhor tradução: "além do homem") esse que teria a vida plena, livre da religião e o enaltece. Mas, não existe super-homem. A existência é limitada e ele foge dessa realidade.
E não foi por falta de fraquezas e doenças que o acometeram.
Então, Nietzsche aceita a vida por tudo o ela oferece, o que de bom e o que de mal. As circunstâncias que chama de "amor fati" — amor ao destino — e comemorar tudo o que é imposto a enfrentar.
E ele fala no "eterno retorno", conceito que não tem nada transcendente. Nietzsche engendrou esse teoria imaginando que a vida impõe um retorno ao seu cotidiano, um ciclo incondicional e infinita repetição de todas as coisas. Aqueles momentos que pedem uma reflexão dessa repetição, dos eventos que a vida impõe, e o amor ao destino.
Ele se dizia "dionisíaco", do "deus" grego Dionísio. Para melhor enquadrar, o que talvez inspirasse Nietzsche, tomo emprestado esta face do "deus":
"Dioniso era representado nas cidades gregas como o protetor dos que não pertencem à sociedade convencional e, portanto, simboliza tudo o que é caótico, perigoso e inesperado, tudo que escapa da razão humana e que só pode ser atribuída à ação imprevisível dos deuses". (*)
E também do vinho, da alegria, do êxtase...
E Nietzsche chega ao ponto de se referir ao ditirambo, um canto coral alegre ou sombrio, ode ao vinho, com personagens vestidos de faunos ou sátiros (figuras mitológicas greco-romana, metade humanos, metade animais), "companheiros" de Dionísio.
"Eu sou um aprendiz do filósofo Dionísio e faço gosto antes em ser um sátiro do que um santo".
E uma frase:
— Fui compreendido? - Dionísio contra o crucificado...
Eis aí Nietzsche!
CONCEITOS
● Ele coloca Zaratustra como sua obra máxima, o maior presente à humanidade que lhe foi dada até hoje, o mais profundo que veio ao mundo cuja voz será ouvida por milênios! O livro mais alto que existe. O pensamento do eterno retorno.
São seus evangelhos.
O que disseram alguns de seus
contemporâneos:
► Heinrich von Stein se queixou
honestamente de não ter entendido uma palavra da obra;
► Um professor da Universidade de
Berlim deu a entender que deveria Nietzsche dizer doutro modo aquilo que quis
dizer.
► Dr. Widmann me expressou sua atenção pela coragem com que eu me empenhava em acabar com todos os sentimentos decentes.
"Junte-se o espírito e a bondade de todas as grandes almas em uma só: todas juntas não estariam em condições de proferir um dos discursos de Zaratustra". Porque "ele viu mais longe, ele quis mais, ele alcançou mais do que qualquer outro homem".
Exacerbações de Nietzsche!
Verso do "Assim falou
Zaratustra:
"Oh, só vós, os escuros,
vós, os noturnos, sois quem produzis calor para vós mesmos daquilo
que ilumina! Oh, só vós é que bebeis leite e bálsamo das tetas da
luz."
[Pois, então, os
sombrios produzem calor que os ilumina e ainda bebem leite das tetas da luz !]
● Nietzsche, com 44 anos, em janeiro de 1889 após um colapso nervoso, perdeu a razão no auge de sua vida intelectual. Esse estado de demência, perdurou até sua morte em 1900, aos 55 anos de idade.
CONCLUINDO
Entre os tantos conceitos filosóficos de Nietzsche nessa obra reconheço a dificuldade em sintetizar.
Mas, uma coisa é certa: a insistência em desprezar o cristianismo com toda sua veemência e, como decorrência, o Deus cristão. Tudo o que se sabe de suas obras, a conclusão que não seria apenas o Deus do cristianismo, que alguém já sugeriu, que ele rejeita, mesmo com suas doenças, e a suspeita da sífilis que talvez fosse desconhecida.
A sífilis tem como sintoma, delírios de grandeza.
E há uma ironia em sua vida e sua filosofia, do viver intensamente, do homem superior, do amor fati (amor ao destino), porque o destino não lhe foi benigno.
Nessa sua filosofia amarga, é Stefan Zweig que relata. após dado o diagnóstico de demência incurável provindo da Basileia em janeiro de 1889.
Com todos os receios médicos, o doente, aquele gênio que sacudiu a intelectualidade, até até contestando de modo sagaz filósofos e religiosos de seu tempo foi entregue à sua mãe, omitindo o Zweig "cenas pungentes que se recusa a reproduzir" para uma viagem de trem:
"Viagem medonha! — uma crise de fúria do louco contra a mãe. obrigada a refugiar-se em outro compartimento — horrenda a internação no hospício, no qual o maior gênio do século foi encarcerado numa cela a cinco marcos por dia. Para os médicos, aliás, ele não é este gênio, mas um simples caso de paranoia com a observação, entre parêntesis, de incurável..." (**)
Legendas:
(*) Wikipédia
(**) "A Marcha da história" de Stefan Zweig, edição de 1943.
OUTRAS OBRAS DO AUTOR E UMA BIOGRAFIA
Acessar:
NIETZSCHE INTRODUÇÃO BIOGRÁFICA
NOTA DE DIVULGAÇÃO
DOS LIVROS QUE LI
Resenha - Livro 151: ECCE HOME de Friedrich Nietzsche
Essa é a ultima obra de Nietzsche antes do colapso mental.
Critico mordaz do cristianismo que para ele tolhe a vontade livre de viver, declarou-se ateu e inspirado do Dionísio, o deus grego do vinho, das festas, do teatro. Disse ele: "Eu sou um aprendiz do filósofo Dionísio e faço gosto antes em ser um sátiro do que um santo".
Ele é enfático na obra que considera acima de tudo o que já foi escrito, "Assim falou Zaratustra"; saindo do lugar comum dos manipulados pela religião, os adeptos da caridade e da compaixão condutas que rejeita, anuncia o super-homem, aquele que vive integralmente, livre de amarras religiosas, olhando do alto da montanha. Mas, o super-homem é também frágil. Nietzsche, que se denominou o Anticristo, não enfrentou a finitude da vida. Ele viveu naquele que denominou amor fati (amor ao destino), enfrentando as decorrências da vida.
Ele e seu super-homem, tiveram um fim trágico.
Muito mais, acessando:
https://resenhadoslivrosqueli.blogspot.com/2026/04/ecce-homo-eis-o-homem-de-friedrich.html
