LIVRO 152
["Spoiler"]
Sagarana foi escrito nos fins da década de 30 e lançado em 1946.
A orelha da capa explica o título: A junção da palavra saga (narrativa história ou lendária) com o sufixo tupi rana (que exressa a ideia de semelhança).
A linguagem que adota o Autor considero uma tipo de "dialeto" sertanejo, carregado de vocábulos incomuns que eu, na minha ignorância, nem sei se os personagens conseguiriam, efetivamente, falar daquele modo nos rincões de Minas.
São 9 "novelas" como diz o Autor, a primeira dela é
O BURRINHO PEDRÊS
Esse primeiro conto, é do burrinho pedrês (malhado entre preto e branco), "miúdo e resignado" chamado de Sete-de-Ouro.
Desde logo Paulo Ronái no prefácio de 1946 escreveu:
"O burrinho pedrês, por exemplo é de todas as narrativas aquela, cujas partes, de início parecem mais desconjuntadas. Contém uma serie de historietas e anedotas que não fazem avançar a história central".
Sim, há algumas histórias que ilustram o texto e eu vou me fixar na do negrinho: menino duns sete anos, magrinho que fora entregue por um fazendeiro que vendera seu gado ao major Saulo para que fosse, o menino, entregue ao irmão. Durante todo o trajeto da boiada, o negrinho chorava sem parar. Ameaçado, em vez de chorar, passou a cantar. Ele vinha na garupa do João Manico.
Manico montava o burrico. Mas, num incidente banal, o gado se dispersou dando-se uma tragédia, porque dois sertenejos foram mortos sob as patas da boiada. Nesse momento o menino desapareceu.
Com muito esforço, reunida a boiada, se depararam com uma enchente severa e na travessia das águas, o burrico, agora montado por Badú, superou todas as dificuldades impostas pela enchente, salvou o cavaleiro e o secretário do major, Francolin que agarrara o rabo do Sete-de-Ouro.
E o burrinho voltou para o seu canto, comeu milho "e se acomodou para dormir entre a vaca mocha e a vaca malhada, que ruminvam, quase sem bulha (barulho), na escuridão."
A VOLTA DO MARIDO PRÓDIGO
E a hisória de Lalino Salathel (Eulálio de Souza Salathiel) , um mulato falante, meio artista, casado com a bonita Maria Rita.
Havida longa conversa na hora do almoço, numa obra de desbaste de terras com o seu Marra, coordenador dos trabalhos, descreve Lalino no Rio de Janeiro sobre as mulheres bonitas, francesas disponíveis.
Depois dessa conversa, Lalino vende seu jumento e o carroção e abandona tudo, a mulher — que deixa aos "cuidados" do espanhol Ramiro — e viaja para "belorizonte".
Fica lá um ano e depois volta, sendo mal recebido por ter "vendido" a mulher.
Acaba se ligando ao major Anacleto, fazendo conchavos políticos até que, com suas piadas e humor, consegue levar à casa do patrão o Secretário do Interior, um acontecimento político. Isso dá a Lalino prestigio incomum perante o major.
Nesse meio tempo sua ex-esposa, a Ritinha, que o amava ainda, refugiou-se na caso do major, fugindo do espanhol enciumado pela volta de Lalino; dá-se a reconciliação de Lalino—Maria Rita. O major Anacleto manda espulsar os espanhois que ele preservava, comprando o sítio deles.
SARAPALHA
Esta estória se passa num lugarejo abandonao pelos habitantes com a chegada da sezão (malária) que proliferou com as fêmeas do mosquito.
Ficaram os primos Argemiro e Ribeiro. O primeiro apoiava muito Ribeiro que lhe agradecia. Ribeiro relatava sua mágoa porque sua amada, por causa da doença ou nem tanto, foi embora com um bonito moço, perdendo a esposa.
Então o primo Argemiro com muito cuidado confessa que também amava a esposa de Ribeiro
Ribeiro o expulsa do convívio, mesmo Argemiro alertanto que o primo poderia prcisar dele.
Argemiro sai, não sabe para aonde, se encanta com as flores e a vegetação e
"— Mas, meu Deus, como isto é bonito! Que lugar bonito p'r'a gente deitar no chão e se acabar...
"É o mato, todo enfeitado, tremendo também com a sezão".
DUELO
Não é bem um duelo.
Turibio Todo, tivera um dia ruim na pesca e tudo o mais e, à forma do flagrante de sempre, chegou em casa mais cedo e lá estava sua esposa, dona Silivana, praticando adultério com Cassiano Gomes, militar destacado.
Nada fez, esperou acabar o "amor" e naquele dia tudo normal com a esposa com aqueles olhos grandes.
Ele, tinha um pontaria razoável.
Ficou de tocaia em posição na casa do Cassiano, ele apareceu de costa sendo alvejado mortalmente. Mas, não era o Cassiano a vitima mas o irmão dele.
Turíbio foge. Cassiano sai eem seu encalço; eles e até se aprosimam mas não se encontram para o desenlace do duelo.
Turibio vai para São Paulo, ganha dinheiro, enqunto Cassiano, com problemas cardíacos, se hospeda num lugarejo desprovido.
Ajuda o Timpim, o "Vinte e um", porque fora o 21º filho da familia. Ele era pai de um menino muito doentee com toda a dificuldade da pobreza. Antes de morrer, depois de confessar e comungar, Cassiano deu ao 21 todo o dinheiro que tinha.
Turíbio, enquanto isso, feliz, endinheirado, volta para esposa e na estrada é interpelado por um modesto cavaleiro. Conversam bastante até entrarem numa área mais fechada da estrada. Era Turim-21 que prometera nos momentos finais de vida de Cassiano vingar a morte do irmão. E assim fez. A garrucha não falhou. Turíbio foi morto com dois tiros.
MINHA GENTE
Esta novela me pareceu simplória, na qual o Autor se refere a algumas personagens que, praticamente, se perdem na história, antes e depois de chegar o narrador à fazendo do seu tio Emilio a saber:
Tio Emílio do Nascimento, o fazendeiro, político influente na região. Pai de duas filhas, a mais velha Helena, casada que não morca mais na fazenda e a linda Maria Irma,
Santana, inspetor de escolar, exímio enxadrista que carregava as peças do jogo e o tabuleiro na mala. Falam de jogadas do xadrez e ele sai de cena, salvo numa carta no final quando se refere ao movimento de jogo que ele esquadrinhou e que não o teria teria perdido.
José Malvino que fez amizada com o narrador, um vaqueiro que contou história de um lugar assombrado e deu explicações de sua cultura sertaneja.
Bento Porfírio, amigo do narrador que se acompanharam em pescarias. Na última dela, esse pescador confessa seu amor pela de-Lourdes, casada com Alexandre que não saberia de nada. De repente, aparece o marido traído que teria ouvido a confissão da paixão e assassina Bento que cai no charco para horror do narrador.
Maria Irma, a paixão do narrador, sua prima. Por mais que declare seu amor ela não corresponde. Ela recebe a visita de Ramiro, que lhe presenteia livros em francês. Ramiro era noivo de Armanda.
Quando ele volta à fazenda mais tarde, encontra o tio todo envolvido com cartas e telegramas de natureza política, até que pôde perguntar pelo seu amor, Maria Irma. Foi ao jardim e ela não estava só; lá estavam Ramiro e Armanda.
A prima lhe apresenta Armanda. O narrador e Armanda se apaixonam e se casam. Maria Irma se casa com Ramiro...
SÃO MARCOS
Essa 'novela' foi difícil de vencer não só pelo enredo como excessos da linguagem dita sertaneja.
Mas, o conto começa com um relatório de magia negra, feiticeiros e feitiços, trabalhos espirituais e por aí vai.
Mesmo aconselhado a não abusar dessas crenças, ele humilha João Mangalô com comentários racistas.
Ele encontra Aurisio que vinha da missa que o aconselhou não caçoar dessa práticas, mas o personagem recitou, distorcendo, a oração de São Marcos e São Manso: "Em nome de são Marcos e do São Mansos, e do Anjo-Mau seu e meu companheiro..."
É que em lugar do Anjo-Mau o correto seria "do Espírito Santo".
Esse personagem-narrador, se embrenhava nas matas, fazia poesias, descrevendo os animais que via, os pássaros e até as formigas.
Numa dessas tarde, perto da lagoa, de repente ficou cego. Reza a oração de São Marcos. Com muitas dificuldades, cego, chegou à moradia de João Mangalô e foi logo o agredindo. E o feiticeiro pusara uma venda nos olhos do narrador numa foto para que ele ficasse um tempo cego.
Ao voltar a ver, "e como era bom ver" e, estendendo a "bandeira branca" — uma nota de dez mil reais, dizendo ao feiticeiro que nada o afetava porque era um anjo bom e tinha a reza brava.
CORPO FECHADO
A característica do Autor é dar alguma sinal no inicio da história, "divaga" na maior parte e nas páginas finais dá o desfecho da trama.
No caso desta novela, o começo se refere aos valentões do lugarejo sobrando por último, o temido Targino.
O médico tem como amigo Manoel Fulô, dono duma mula que adorava, a Beija-Fulô. Páginas e paginas são das explanações do Manoel, sobre os tempos em que conviveu com os ciganos, com quem aprendeu seus truques e malícias, negócios "viciados". Então ele informa ao médico que ia de casar com Maria das Dores, moça bonita e prendada.
Mas, então, apareceu Targino e disse que desfrutaria da noiva e depois ela e Manoel poderiam se casar. Mas, havia o curandeiro Antonico das Pedras que ofereceu a Manoel em troca da mulinha, o corpo fechado e poder enfrentar Targino.
Assim se deu: a mula foi dada a Antonico que, aliás, tinha uma sela mexicana cobiçada por Manoel.
Targino não acertou os cinco tiros e Manoel Fulô o esfaqueou até a morte.
Casado, fama de valentão sossegado, quando escapava da esposa, pedia emprestado a Beija-Fulô do curandeiro promovendo encenações na rua Direita.
CONVERSA DE BOIS
Este conto foi muito difícil de concluir e o fiz com muito esforço por um princípio que adotei: livro iniciado tem que ser lido até o fim.
A história com "dialeto" sertenajo exacerbado, retrata, sim, uma conversa de bois, a descrição de como se sentem no trabalho, o tratamento respeitoso entre eles, tratando-se pelos mesmo nomes que lhes deram os tratadores e até a reflexão que, às vezes, pensavam como humanos.
— O homem é um bicho esmochado, que não devia haver .(...) É o único vulto que faz ficar zonzo só de se olhar muito. É comprido demais, para cima, e não cabe todo de uma vez, dentro dos olhos da gente.
Como coadjuvantes, o Tiãozinho, cujo cadáver do pai (Januário) para ser enterrado foi conduzido por seis léguas, num carro com rapaduras conduzido por Agenor. Mas, Tiãozinho triste, vai para o trabalho de controlar os bois.
Agenor Soronho era odiado por Tiãozinho que sonhou que o havia assassinado e disse isso na frente dos bois. Esse Agenor, pelos bois, era conhecido como "pau-comprido-com-o-marimbondo na ponta", isto porque, por certo, os catucava.
Pois bem, um dia Agenor Soronho, dormitava no carro, estando à beirada. Oito bois se uniram, derrubaram o carro e ele foi morto, quase degolado.
Tiãozinho gritou à Virgem, Nossa Senhora e diz que Agenor era brabo mas não de todo mau, não.
Bois pensando como o ser humano, seria o caos...
A HORA E A VEZ DE AUGUSTO MATRAGA
Esteves Augusto, o Nho Augusto era um homem truculento, comandando um bando. Pela sua mal malvadza, sua perversidade, a esposa Dionóra e a filha dele fugiram, passando viver com Ovídio.
Ao pensar em reagir, o seu recadeiro Quim lhe informou que os homens de seu bando haviam se aliado ao Major Consilva. Indo ao enfrentamento do inimigo, lá tomou um surra violenta e desmoralizante.
Um casal de negros, no seu casebre, dele cuidou e, quando resolveu viver, aconselhado por um padre, foi convencido a mudar de vida. E o padre lhe disse que "cada um tem a sua hora e a sua vez: você há de ter a sua".
E ee se tornou religioso dizendo "que ia para o céu nem que fosse a porrete".
Chega ao local o bando do Joãozinho Bem-Bem. Nho Augusto e Bem-Bem fazem amizade de amigos velhos. Todo o bando é convidado para um pouso e lauta refeição.
Depois disso, sobre protestos dos "pais" negros, resolve sair pelo mundo quando volta a encontrar o amigo Joãozinho Bem-Bem num momento delicado, Bem-Bem ameaçava matar o assassino do Juriminho, que era muito estimado no bando,
E, trazido o pai do assassino, ele implora o perdão, mas Bem-Bem é irredutível. Diz que as filhas serão entregues aos seus homens do bando.
Então, Nho Augusto pede que o amigo desista da vingança.
Mantida a vingança, Nho Augusto ataca Bem-Bem com faca e o deixa em estado de morte. Muitos tiros e Nho Augusto também é mortalmente ferido. Ele descobre que o velho suplicante era seu primo João Lomba. E ao primo diz para abençoar sua filha onde estivesse e "fala com a esposa Dionóra que está tudo em ordem." E morreu.
NOTA DE DIVULGAÇÃO
SAGARANA de João Guimarães Rosa
Livro 152
Não sei se gostei do livro. Confesso que me irritei um pouco com o linguajar sertanejo erudito adotado por Guimarães Rosa, partindo do princípio, que aqueles mineirinhos nos rincões de Minas, não usariam os termos que usou o Autor, num "átimo"!
Quanto aos nove contos, sendo criação do escritor, como considerar? Eu me manifestei na resenha resumida de cada um. Os contos são estes: "O burrinho pedrês", "A volta do marido pródigo", "Sarapalha", "Duelo". "Minha gente", "São Marcos", "Corpo fechado", "Conversa de bois" e "A hora e a vez de Augusto Matraga".
Se bois pensassem como os humanos estaríamos vivendo o caos...
Os admiradores do Autor e eu sou um, devem gostar muito do livro.
Acessar: https://resenhadoslivrosqueli.blogspot.com/2026/08/sagarana-de-joao-guimaraes-rosa.html






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