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sexta-feira, 29 de setembro de 2017

UMA BREVE HISTÓRIA DO TEMPO de Stephen W. Hawking

Livro 25

O livro de Hawking, para leitores fora do ambiente da física, da cosmologia é muito difícil.  A maior parte das páginas explana sobre teorias cósmicas, de criação do universo e, tantos os debates e as discussões que o livro discorre que, no final de tudo, “tudo é relativo”. Pela minha formação, só cheguei ao final da leitura do livro porque me propusera a tanto.




Hawking sofre da doença degenerativa “ela” – esclerose lateral amiotrófica. Quando tinha 21 anos a doença foi diagnosticada vindo com o diagnóstico a informação de que não viveria muito tempo. Hoje, completamente imobilizado, se comunica por um programa que transmite mensagens pelos movimentos de seus olhos, já com 75 anos de idade (em 2017).

Hawking começa o livro com aqueles princípios elementares, teorias primordiais, a partir de Aristóteles que entendia a Terra estática no cosmos e, em torno dela, giravam o Sol e os planetas então conhecidos.

Copérnico corrigiu Aristóteles bem assim Ptolomeu, divulgando anonimamente sua teoria, afirmando que  a Terra e os demais planetas giravam em torno do Sol. E por que a divulgação anônima? Porque ele receava represálias da inquisição.

Kepler e Galileu defenderam a teoria de Copérnico. Galileu, físico brilhante, mas advertido pela inquisição a não prosseguir nos seus estudos porque não havia provas suficientes de que a Terra girava em torno do Sol.

Hawking se refere à descoberta da “lei da gravidade” por Isaac Newton  e divulgada em 1687 num momento contemplativo do  célebre matemático quando viu uma maçã cair no chão.

[A maçã não teria caído sobre sua cabeça]. 

Pelo conceito de gravidade, era possível compreender que os corpos celestes, embora atraíssem uns aos outros, segundo seu tamanho, permitia o equilíbrio do universo porque o número de estrelas seria infinito.

No final da década de 20 do século passado, Edwin Hubble sugeriu que o universo fora constituído a partir de uma grande explosão, o Big Bang. Se aceita essa teoria, não seria possível pensar no que existia antes da ocorrência desse fenômeno.

Nota-se no livro que entre “idas e vindas”, inclusive para Hawking, essa teoria acabou sendo aceita por muitas cientistas.

A Igreja católica em 1951 pronunciou-se oficialmente sobre a teoria do Big Bang porque estaria ela em harmonia com a Bíblia.

Mas, o que fazia Deus antes da grande explosão?

Essa explosão teria ocorrido a dez bilhões de anos. A evolução dos seres inteligentes teria se dado, também, nesse tempo.

A incerteza das teorias:

“Qualquer teoria física é sempre provisória, no sentido de que não passa de uma hipótese, não pode ser comprovada jamais. Não importa quantas vezes os resultados da experiência concordem com uma teoria, não se pode ter certeza de que, da próxima vez, o resultado não vá contradizê-la.”

A mecânica quântica “introduz um inevitável elemento de imprevisibilidade ou casualidade da ciência”. Ela não prevê um único resultado para um número definido de observação mas um número de diferentes e possíveis resultados.

Einstein, que defendia os conceitos da mecânica quântica tendo mesmo papel destacado no seu desenvolvimento não aceitou a sugestão de que o universo fosse gerido pela casualidade e diria: “Deus não joga dados”.

“Parece que o princípio da incerteza é ainda uma característica fundamental do universo em que vivemos.”

Porque “na teoria clássica da relatividade geral, não se pode prever como o universo teria começado porque todas as leis científicas conhecidas teriam falhado na singularidade da grande explosão.”


(A teoria da relatividade foi proclamada por Einstein em 1905 e a teoria da relatividade geral em 1915. Ela afirma que tempo não é o mesmo em qualquer circunstância, ele é relativo, podendo variar de acordo com a velocidade, a gravidade e o espaço percorrido).

Mas, descoberta uma “teoria unificada e completa, portanto, talvez nos ajude a sobrevivência de nossa espécie. Pode até não afetar nosso estilo de vida”, mas “ansiamos por saber porque estamos aqui e de onde viemos”.


O universo está em expansão entre cinco e dez por cento a cada bilhão de anos. As distâncias são incertas e imensuráveis. Alias, chegamos ao “conceito atual de que a Terra é um planeta de tamanho médio (não será minúsculo?), girando em torno de uma estrela média (?) nas regiões periféricas de uma galáxia espiral comum, que é apenas uma das aproximadamente um trilhão que se observa no universo” (“trilhão”!).

Buracos negros:

Definição difícil de decifrar no livro. O glossário explica o “buraco negro primordial” formado no início do universo. Mas, o que se aplica no livro sobre esse tema teórico, seriam estrelas que perderam a força como tal, mas permaneceram como massa no universo, com forte atração gravitacional que não poupa nem a luz.

Deus e o ateu:

Hawking tem se proclamado ateu.

Mas, as teorias “relativas”, inconclusivas o levam a pensar em “alguém” que arquitetou isso tudo, esse universo inexplicável que às vezes coloca em questão a própria existência da humanidade.

[Eu é que pergunto: onde, afinal, nos situamos, nessa imensidão sem começo e sem fim, para que servimos? E não entendendo ou não tendo lógica para pensar sobre isso, ocorre terrível predação que ironicamente coloca em risco, nalgum tempo futuro, a própria sobrevivência da humanidade, a nossa, não a do planeta]

Na introdução do livro, Carl Segan, observa:

“Hawking, como ele mesmo afirma explicitamente, tenta compreender a mente de Deus. Isso torna a conclusão deste esforço completamente surpreendente: o universo sem limites no espaço, sem começo ou fim e sem nada que um Criador pudesse fazer.”

Hawking admite que poderia existir um criador dessa imensidão universal, um eterno desafio à inteligência que nenhuma teoria explica, tudo é “relativo”, observando:

“Mas se realmente o universo é completamente autocontido, sem limite ou margem, não teria havido começo, nem haverá fim, ele seria, simplesmente. Que papel estaria então reservado ao criador?”

Por fim, ele chama ao debate cientistas, filósofos e mesmo leigos para estabelecer razões dos motivos que o universo e nós existimos.

E afirma:

“Se encontrarmos a resposta para isto teremos o triunfo definitivo da razão humana: porque, então, teremos atingido o conhecimento da mente de Deus.”

Esses elementos que colhi no livro de Hawking são alguns princípios, em alguns pontos até notando contradições. O livro não é só isso. Isso é pouco. Ele contém um forte encaminhamento científico no qual se destacam conceitos elevados de física. E sobre esses conceitos, não tenho condições mentais de discutir.
Por isso aceito críticas e correções.


O HOMEM QUE CALCULAVA de Malba Tahan

Livro 24



Malba Tahan é o pseudônimo de Julio Cesar de Mello e Souza.

Quem não ouviu alguma coisa sobre esse livro clássico do educador e matemático Malba Tahan?
Mas, o título do livro já revela, por si só, a que se refere: fórmulas matemáticas, algumas interessantes que o brilhante Bereniz, “o homem que calculava”, as usava com sabedoria, resolvendo todas as questões e desafios que lhe eram submetidos. Sempre pela matemática.


A história se situa no século XI e Bagdá era a célebre cidade, “a pérola do Oriente”.

As narrativas se dão entre personagens árabes-muçulmanos.

A história começa com o encontro do seu narrador e o “homem que calculava”, quando “voltava eu, certa vez, ao passo lento do meu camelo, pela Estrada de Bagdá, de uma excursão à famosa cidade de Samarra, nas margens do Tigre, quando avistei, sentado numa pedra, um viajante, modestamente vestido, que parecia repousar das fadigas de alguma viagem.”

Era Bereniz. “o homem que calculava”. Nasceria naquele encontro uma forte amizade entre eles.

Uma primeira disputa que Bereniz resolveu deu-se com a divisão de 35 camelos herdados por três irmãos: ao mais velho caberia a metade(17,5 camelos), ao irmão do meio a terça parte (11,67)  e ao caçula, a nona parte (3,15 camelos).

A divisão não seria exata, dai os desentendimentos entre os irmãos.

O que fez o “homem que calculava”?

Tomou emprestado o camelo do narrador e amigo, inteirando 36 camelos.

A divisão:

Ao herdeiro mais velho, coube 50%, 18 camelos: (em vez de 17,5);
Ao herdeiro do meio: 1/3, 12 camelos (em vez de 11,67)
Ao herdeiro mais moço: a 9° parte, 4 camelos (em vez de 3,88)

Todos foram beneficiados pela divisão. A soma: 18 + 12 + 4 = 34

Sobraram 2 camelos: um  foi devolvido ao amigo-narrador e o outro,  aquele um que sobrou, Bereniz se apossou como seu.

Os irmãos ficaram contentes com a fórmula da divisão praticada pelo “homem que calculava” e não se opuseram em entregar o camelo que “sobrou”.

Outras formulações matemáticas ocupam todo o livro.

Bereniz se casou com Telassim, que era cristã (filha de 17 anos do poeta Iezid Abul Hamid). Bereniz repudiou a religião de Maomé e adotou integralmente o Evangelho de Jesus.

Fez questão de ser batizado por um bispo que sabia a Geometria de Euclides.


Em 1258, relata o livro, “uma horda de bárbaros e mongóis atacou a cidade de Bagdá.” (...) A cidade foi saqueada e cruelmente arrasada.”
“A gloriosa Bagdá, que durante 500 anos fora um centro de ciências, letras e artes, ficou reduzida a um montão de ruínas.”

Apêndice

Linhas acima foi destacado que "Bereniz repudiou a religião de Maomé e adotou integralmente o Evangelho de Jesus".

um apêndice que trata do islamismo para a devida reflexão pelo que se passa nos tempos atuais:


A forma “Islã” é derivada do árabe “assalã”, que significa paz, harmonia, confraternização. Islã exprime, afinal, resignação à vontade de Deus.

Para o árabe muçulmano, a denominação de infiel é dada a todo indivíduo não-muçulmano, isto é, ao indivíduo que não aceita os dogmas do Islã e não segue a trilha do Alcorão, que é o Livro de Allah. (*)

Um muçulmano piedoso, sincero, quando se refere a um infiel (cristão, idolatra, pagão, judeu, agnóstico ou ateu), isto é, quando cita o nome de um servo de Allah que viveu no erro, nas trevas do pecado (depois da revelação do Alcorão), por não ter sido esclarecido pela fé muçulmana, acrescenta este apelo:

- Allah se compadeça desse infiel!

Ou recorre a esta fórmula, que é, igualmente, piedosa:

- Com ele (o infiel) a misericórdia de Allah!

Aceitam os muçulmanos, como dogma, que o infiel, depois da vitória do Islamismo, tendo vivido na heresia, longe da verdade, estará, fatalmente, depois da morte, condenado às penas eternas. É preciso, pois, implorar sempre para os infiéis (especialmente para os sábios), a clemência infinita de Allah, o Misericordioso. 


(*) O Alcorão foi “sistematizado” entre 632 a 650 dC.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

MARIA MADALENA E O SANTO GRAAL de Margaret Starbird

Livro 23

(Subtítulo: “A mulher do vaso de alabastro”)

Na capa do  livro de Margaret Starbird há indicação de que é um dos que inspiraram “O Código Da Vinci” de Dan Brown.
A autora que inseriu em sua obra inúmeros quadros antigos e imagens que indicavam o simbolismo do "sagrado feminino", o Santo Graal, a própria Maria Madalena, esposa de Jesus, não se aproveitou da célebre pintura “A Santa Ceia”, de Leonardo Da Vinci como fez Dan Brown em seu “O Código Da Vinci”.



















A essência do livro se refere à possibilidade de ter sido Jesus casado com Maria Madalena e, nessa condição, não tinha ele, a tão apregoada pureza sexual.

Nos primórdios do catolicismo, essa ideia era rejeitada de modo radical. No prefácio de livro, o Rev. Terrance A. Sweeney, Ph.D critica a Igreja pela sua posição antissexual, descrevendo religiosos que chegaram ao extremo: “Justino Mártir era tão avesso à intimidade conjugal que não podia imaginar Maria concebendo Jesus por meio do sexo. Em vez disso, ele afirmou que ela concebeu ainda virgem. Orígenes, que acreditava que Jesus fizera voto de castidade, castrou-se a si mesmo.”

A Autora era (ou é) católica fervorosa e ao ler o livro “O Santo Graal e a linhagem sagrada” decidiu pesquisar para desmentir seus autores que imaginava faria com facilidade mas, à medida que avançava nos estudos percebeu que a “heresia Maria Madalena” possuía inúmeros indícios que poderiam indicar a sua veracidade, isto é, de que fora ela esposa de Jesus.

Essa ideia crescente nos primeiros séculos foi violentamente combatida pela Igreja.

Nesse passo, passou a predominar aquilo que a autora qualifica como prejuízos da predominância do masculino (), nas relações com o mundo. O equilíbrio entre o masculino e o feminino fora rejeitado, significando, com a predominância do homem, materializou-se um mundo, ao longo dos séculos, belicoso, “brandindo armas irresponsavelmente, atacando com violência e destruição.”

Não houve, então, a união espiritual dos Noivos, o que constituiria o sagrado feminino representado por Maria Madalena, qualificada nas escrituras como prostituta. Jesus não poderia ter uma esposa...

Maria Madalena - o Santo Graal - fora alijada, então, desse equilíbrio de sentimentos.

[Nestes tempos tecnológicos, não houve de modo decisivo em considerar a natureza como elemento de inspiração a ser respeitado, advindo a poluição ameaçadora e, no tocante ao celibato católico, os escândalos da pedofilia – por muitos anos abafados pelos escalões da Igreja].

Jesus, casado com Maria Madalena, fora condenado pelos romanos não só pela blasfêmia ao se opor aos sacerdotes mas também pela insurreição latente  que ele personificava. A cada dia aumentavam seus seguidores que aceitavam suas pregações e milagres.

Por esses crimes, que resultaram na sua crucificação, sua família corria perigo sério de severas represálias pelo poder romano. 

Guiada por José de Arimatéia – amigo de Jesus – Maria Madalena viajou para o Egito, Alexandria, grávida.

Ela era o Santo Graal. O Sangraal - o sangue real. ()

Deu a luz a uma menina que seria filha de Jesus. Estranhou muito porque esperava um menino que seria o condutor de outras profecias bíblicas.

Mas, assim não se deu.

Fugitiva, esquecida, tomou seu lugar, Maria, a mãe de Jesus que tivera outros filhos. Em muitas imagens e lendas a referência a Maria Madalena fora trocada por Maria mãe de Jesus considerada virgem fora posta como a figura feminina a ser reverenciada.

Mas não a Noiva de Jesus.

Na capa do livro há referência à mulher do vaso de alabastro.

O vaso de alabastro, um tipo de cerâmica era utilizado para acondicionar óleos e produtos especiais, como o perfume naqueles tempos.

A autora acredita que a passagem do Novo Testamento, em Marcos, 14,3, a mulher ali referida, que derramou unguento perfumado de muito valor sobre a cabeça de Jesus, fora Maria Madalena.

Relata a autora a vida espiritual dos cátaros, que tinham as mulheres num mesmo nível e direitos dos homens. Levavam vida simples, eram vegetarianos, praticavam o evangelho nos seus mandamentos originais. Não reverenciavam a cruz e a crucificação porque representavam sofrimento. Não precisavam de sacerdotes nem de igrejas. O evangelho era difundido nas casas de seus moradores. Rejeitavam, então, os dogmas distorcidos da Igreja que no seu âmago, identificavam-se pela soberba, pela vaidade e pelo autoritarismo.

Tanto que a inquisição, atacando a região da Provença, França, em 1244 vencendo a resistência dos cátaros que se recusavam a seguir os dogmas da Igreja, cerca de 200 deles foram queimados vivos.

Por tudo, insiste a autora a falta do “sagrado feminino”, um fator de equilíbrio nas ações humanas.

Há muito mais no livro.




O PRESIDENTE NEGRO de Monteiro Lobato

LIVRO 21


















Por ocasião da última campanha presidencial americana na qual se sobressaíra Barack Hussein Obama eleito Presidente dos Estados Unidos em 2009, foi lembrada  antiga obra de Monteiro Lobato, “O Presidente Negro”, escrita em 1926.

A história se desenrola no ano de 2228 e nesse ano os Estados Unidos elegeram um presidente negro, no caso Jim Roy.

O livro de Lobato fora escrito nem 40 anos completos da libertação dos escravos por aqui.

Então, para muitos até hoje - e o que dizer dos Estados Unidos? - os negros sofrem preconceito racial, em algum momentos de forma violenta e perversa.

Mas, será uma obra racista? Diremos impressões linhas à frente.

O livro surpreende.

De início a obra parece que desprovida de seriedade, considerando o nome da empresa para a qual trabalhava o "herói" do livro, Ayrton: "Sá, Pato & Cia Ltda".

A esses patrões soberbos, Ayrton tinha forte submissão.

Porém, para ostentar situação diferente do que mero funcionário burocrático, compra um Ford e por causa do carro recebe até aumento de salário.

Mas, não dura muito. Acidenta-se, fere-se sendo socorrido pelo sábio professor Benson que o conduz até seu castelo na região de Friburgo e lá conhece miss Jane.

Benson o hospeda por  semanas no castelo,  período em que é iniciado nos experimentos do professor. 

As explanações ficam aos cuidados da lindíssima filha Jane, loura de olhos azuis.  

O professor falece, suas invenções são destruídas, mas os eventos futuros (pelo porviroscópio) ficam por conta de miss Jane que convida Ayrton para encontros todos os domingos.

Futurismos de Lobato, "apostando" nas ondas de rádio:

Pelo radio-transporte, desnecessidade de se deslocar para o trabalho que poderá ser feito na própria casa (homeoffice);

● Possibilidade da entrega de produtos sem o entregador - não está afirmado mas tudo se resolveria pelo rádio-transporte (drones?);

Voto eletrônico. Os eleitores não saíam de casa para votar: "Um aparelho engenhosíssimo os recebia (os votos) e apurava automática e instantaneamente";

As comunicações por ondas de rádio levariam imagens às residências (algo como televisão).

Mas, na sua história passada nos Estados Unidos em 2228, a população negra era, digamos, um problema para a raça "ariana" branca e superior, algo levemente parecido com o que se daria anos depois com o nazismo em relação aos judeus e outras populações ditas "inferiores". 

A eugenia resultara na beleza de todos os indivíduos. Os tarados e outros indesejáveis por esse processo, foram banidos. 

Os negros por técnicas aplicadas eram "desbotados", um branco indisfarçavelmente "diferente", mas os cabelos sempre carapinhados.

Não havia o casamento entre as raças, que seria um erro, porque ambas se "estragariam". Então, a comunidade branca pretendera até mesmo transferir os negros para alguma região na Amazônia, na discussão do que fazer com eles.

Mas, e a eleição do presidente negro como se deu?

Para tal vaticínio, se valera Lobato dos seguintes argumentos:

● Os partidos Republicano e Democrata uniram-se como Partido Masculino contando com o apoio dos negros;

● O Partido Feminino contava com a liderança de “miss” Evelyn Astor, rica de todos os dotes de Inteligência, de cultura e da “maquiavélica sagacidade feminina”, se juntava um elemento perturbador no novo jogo político presidencial: “a sua rara beleza”.

Ademais, “nesse ano de 2228 já a mulher vencera o seu estágio de inferioridade política e cultural...”

Com a divisão dos brancos, foi eleito o líder negro Jim Roy, com 54 milhões de votos que "traiu" o partido Masculino.  “Miss” Astor obtivera 50,5 milhões de votos e Kerlog, branco, 50 milhões. E assim, fora eleito o primeiro presidente negro, Jim Roy: 

“Apesar de disporem de um eleitorado de quase o dobro os brancos perderiam a presidência graças à cisão entre os dois sexos provocado pelo “elvinismo” (de “miss” Elvin, na história feminista radical).

Os homens não passavam de gorilas sem pelos...

O que fazer? se perguntava a cúpula branca, coordenada pelo presidente Kerlog.

Reuniões dos luminares brancos se sucediam até que um idoso do grupo John Leland inventor famoso faz uma proposta "definitiva" ao "problema dos negros".

Mantido em sigilo absoluto, uma fórmula contendo um princípio ativo denominado de "raios ômega", possibilitava que os negros poderiam alisar os cabelos.

Mas, na sua fórmula, estava incluída uma substância esterilizante.

Todos os negros aderiram ao alisamento dos cabelos carapinhados e com o tempo, foram desaparecendo porque estéreis,

O presidente eleito Jim Roy,  que havia aderido ao alisamento dos cabelos, num encontro "emocionante" provocado pelo presidente Kerlog - que admirava o líder negro -, comunica-lhe o golpe fatal.

Jim Roy no dia seguinte é encontrado morto.

Novas eleições, Kerlog é reeleito agora com o apoio incondicional das mulheres  que voltaram a considerar os homens como seus companheiros inseparáveis contrariando de modo definitivo a tese do elvinismo de que o homens eram elementos estranhos em fazer par com elas. Elas seriam de outra origem, as sabinas raptadas...

Evelyn Astor se casaria com Kerlog.

Então, a solução final aos negros, fora uma patifaria monumental.

Encerrando o livro, efetivou-se o romance entre o apaixonado Ayrton, tímido, funcionário burocrata e a linda, culta e inteligente miss Jane, a loura de olhos azuis que foi beneficiado pela convivência com sua mestra. E daí, o amor... selado por um beijo "sem fim" do tipo do  de John Barrymore astro de cinema daqueles idos 

O livro é interessante mas não posso deixar de considerar seu cunho racista.


Apêndice

Claro que esse “erro” de pouco mais de 200 anos em suas previsões, deve-se ao fato de que, nos tempos em que Lobato escrevera a história, o preconceito racial nos Estado Unidos era muito mais exacerbado do que nos dias de hoje.

Essa intolerância se manifestara de modo intenso na década de 60, relembrando-se os conflitos violentos havidos em 1962, na cidade de Los Angeles nos quais negros praticaram saques, depredações e agressões, depois da absolvição de policiais que covardemente haviam espancado um negro a ponto de provocar fratura craniana. 

A absolvição dos policiais fora decidida por um júri composto de brancos.

Essas cenas têm se repetido até hoje com grande repercussão.

Dentre todos esses conflitos e mortes, mencione-se o assassinato de Martin Luther King, ativista negro, religioso e pacifista, então com forte influência política, morto em 04.04.1968. Há dúvidas sobre sua morte, o mandante e as motivações; há até mesmo menção a uma “teoria conspiratória”. Ele tinha um sonho:

“Eu tenho um sonho de que um dia esta nação vai se levantar e viver o verdadeiro significado de sua crença: 'Consideramos essas verdades autoevidentes: que todos os homens são criados iguais'. Eu tenho um sonho de que um dia, nas montanhas da Geórgia, os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos donos de escravos serão capazes de sentarem-se juntos à mesa da fraternidade. Eu tenho um sonho de que meus quatro filhos um dia viverão numa nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas sim pelo conteúdo de seu caráter.”

Registre-se que na época da morte de Luther King já vigorava nos Estados Unidos, desde 1964, a lei dos direitos civis – de cuja luta participara – que proibia discriminação no que se refere à religião, à nacionalidade, inclusive no âmbito profissional. 

Pouco tempo depois, a proibição de discriminação se estendeu a indivíduos com mais de 40 anos e de práticas salariais diferenciadas entre homens e mulheres, que exerçam trabalhos iguais ou semelhantes.

Tudo isso sistematizado na denominada “ação afirmativa”, que garantiria “oportunidades iguais de emprego entre os americanos”, indica que os negros de lá, de um modo ou outro, conquistaram e conquistam oportunidades efetivas de ascensão social e profissional. 

No cinema, os negros deixaram de ser coadjuvantes para se tornarem protagonistas. O cinema é uma espécie de vitrina da sociedade americana o que de bom e ruim. Mas, esses avanços não significam que se estabeleceu o paraíso entre negros e brancos.

O fato significativo é que a vitória do mulato Barack Obama, fora sufragado por brancos, negros, hispânicos, incluindo nomes influentes. Todos acreditavam que a vitória de Obama significaria uma guinada necessária nos padrões americanos. A realização do sonho do Martin Luther King. 

O nosso Monteiro Lobato que “previra” a possibilidade de um presidente negro nos Estados Unidos para daqui a dois séculos não poderia, no seu tempo de tantos conflitos raciais, imaginar todas essas mudanças, o avanço tecnológico vertiginoso e a “inacreditável” internet.

O racismo e o preconceito continuam, mesmo entre nós.

Até quando?




UMA VIDA ALÉM DAS EXPECTATIVAS do ator Sidney Poitier

Livro 22

Sabem desses livros vendidos em grandes supermercados que vão ficando à deriva, olhados, quando olhados, com indiferença?
São muitos os que leem de tudo, mas eu ainda acredito que as redes sociais tomam tempo demais de leitores menos entusiasmados com livros mas que se empolgam com mensagens curtas, com fofocas e itens assim, de consumo fácil
















Pois bem, numa dessas liquidações de livros, encarei um livro do ator negro americano Sidney Poitier, “Uma vida além das expectativas – Cartas para a minha bisneta”. Joguei de volta umas três vezes na caixa na qual continha outros tantos livros.

O que tem esse sujeito a transmitir?


Relutei, mas acabei comprando a obra não pelo preço baixo oferecido mas por curiosidade porque, afinal, quis saber o que tinha o ator a dizer.

A motivação do livro do ator fora sua bisneta já com dois anos de idade, então, e ele com mais de 80 anos.

Em 23 cartas à sua neta Ayele, conta o ator quase sua vida toda, suas imensas dificuldades com a pobreza extrema, sua baixa educação e, também, embora nascido circunstancialmente em Miami, sua vida até a adolescência fora vivida numa ilha, em Cat Island despojada, então, de qualquer infraestrutura mínima.

[Sim, existe essa Ilha e é hoje um dos distritos das Bahamas assim, como Nassau, a maior cidade, capítal do arquipélago das mesmas Bahamas]. 



Seus pais produziam tomates em Cat Island e um dos melhores adubos, relata o ator, eram os dejetos de morcegos obtidos em cavernas.

Ao se mudarem para Nassau, Sidney com mais de 10 anos de idade, pela primeira vez vira um automóvel pelo que significou para ele um misto de susto e surpresa: “um besouro imenso”- Aquilo é um carro, disse sua mãe.

Ao se mudar para Miami como cidadão americano porque havia nascido nessa cidade, enfrentando forte intolerância racial sem qualquer perspectiva, para sobreviver, passou a lavar pratos.

Mais tarde em Nova York, fez um teste para ator, por curiosidade e porque precisa trabalhar. Foi rejeitado porque mal sabia ler.

Nessa vida de dificuldades uma curandeira profetizara que ele levaria o nome da família Poitier “por todo o mundo”. E assim foi...

Um aspecto que dei pela falta no livro, omitido, infelizmente, foi o que poderemos chamar de “o pulo do gato” para conquistar Hollywood como conquistou, tornando-se o grande ator que ainda hoje é Poitier, já com 90 anos (2017).

Mesmo numa época de racismo intenso nos Estados Unidos, ele ganhou o Oscar em 1964, pela sua interpretação no filme “Uma voz nas sombras”. E um Oscar honorário em 2002

O nível da segregação racial naqueles anos era radical e até homicida.

É o ator que relata um episódio de coragem de uma estudante negra nos idos da década de 60:

...Chalayne Hunter-Gault, uma dos primeiros afro-americanos a frequentarem a Universidade da Geórgia em 1961. Ela suportou a animosidade que a certa altura incluiu um ataque de uma horda de segregacionistas ao seu dormitório com pedras e garrafas. A polícia da cidade teve que conter a multidão, mas ela se manteve firme com coragem...”

De lavador de pratos e semialfabetizado, o ator venceu com muito sucesso numa profissão de poucos, foi reconhecido e respeitado. Ele filosofa, opina sobre o mundo e explana sobre suas crenças, sobre Deus.  Aliás, Poitier nascera prematuro, sua vida periclitou, mas sobreviveu pelo esforço de sua mãe. Ele dá a entender que sua vida foi protegida por Divindades.



O livro é bom.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

ENCONTROS COM HOMENS NOTÁVEIS de G. I. Gurdijieff

Livro 20

Tenho a impressão que os ensinamentos de Gurdijieff já tiveram estudos mais aprofundados no passado. Neste livro, o Autor, falecido em 1949, não se aprofunda nos seus ensinamentos, embora na convivência com os “homens notáveis”, muitas experiências ele relata até de modo jocoso. Esse livro teve uma versão cinematográfica. A sua capa provém de uma cena do filme.





Nas páginas de introdução, pelas palavras de um sábio que respeitava muito, Gurdijieff faz críticas irônicas aos romances que nada trazem de útil e a própria imprensa é desacreditada pelas distorções que pratica na divulgação de notícias. E critica, também, a gramática porque ela poderia tirar a espontaneidade das explanações. Ele falava, pelo menos, uma dezena de idiomas.

Não esperem, porém, que tudo de seus relatos, sejam experiências imaculadas. Não. Por vezes, para sobreviver nas grandes viagens que empreendeu, obrigava-se a obter recursos de modo não muito apropriados.

Por exemplo: apreendera pardais, pintava-os de amarelo e os vendia a bom preço afirmando que eram canários americanos raros.

Mas, não demoraria muito a deixar a cidade porque os pardais poderiam desbotar a qualquer momento...

Além dessa outras práticas foram relatadas que não se enquadram nos limites rigorosos da lisura.

Quando trabalhou na construção de uma linha férrea, sabendo do seu traçado e por quais cidades passaria, remetia a elas um  um assessor sugerindo o pagamento de uma "compensação" de tal modo que poderia desviar o traçado, as beneficiando. Mas, a cidade já constava do traçado!

Como tinha talento especial para "consertar tudo", era comum cobrar preço exorbitante apenas para mudar uma alavanca, fixar uma mola solta, que o incauto desconhecia.

O começo do livro revela sua perplexidade com certos fenômenos que poderiam ser atribuídos a milagres, sem explicação nos conceitos comuns da vida como, por exemplo, um jovem paralítico que rastejando até o túmulo do santo, o beijou e desmaiou. Ao recobrar os sentidos, estava curado, contrariando todas as possibilidades.

Há o relato da manifestação de espécie de zumbi, um espírito brincalhão que se apossa de um cadáver mal sepultado e pratica ações de mau gosto, especialmente contra os inimigos do morto.

Essas manifestações desafiavam sua razão.

Daí, suas viagens pela Ásia Central, incluindo o Tibete foram extensas, demoradas, fixando-se, com seus amigos que pensavam igual a ele, em localidades remotas, em busca do autoconhecimento.

Há descrições de grandes dificuldades que foram superadas nessas viagens que nem sempre revelavam essa busca interior. As viagens resultavam não tanto em revelações espirituais ao autor e seus seguidores, mas experiências de sobrevivência, contatos com tipos humanos que afinal, ajudaram na sua busca:

"Um dia fomos chamados ao recinto do terceiro pátio, em casa de um xeque do mosteiro, que falou-nos com a ajuda de um intérprete. Deu-nos como instrutor um dos monges dos mais antigos, um ancião que tinha o aspecto de um ícone e que, segundo os outros frades, tinha duzentos e setenta e cinco anos."

Experiências não se transferem, mas se relatam. Padre Giovani, italiano, a quem o autor conheceu em Citral (Paquistão), num dos diálogos disse:

"Por exemplo, se meu próprio irmão bem amado viesse, neste momento, até a mim e me suplicasse que lhe desse nem que fosse a décima parte de minha compreensão e de que modo o meu ser quisesse fazê-lo, não poderia sequer comunicar-lhe a milésima parte dessa compreensão, por mais ardente que fosse meu desejo, porque não existe nele, nem o saber que adquiri, nem as experiências pelas quais me foi dado passar a minha vida."

Nessas viagens tão duradouras, longínquas, não havia, pelo que relatado no livro, o elemento feminino, a prática sexual, mas entre seus companheiros de aventuras, a amizade integral, que provinha do “amor profundo”, de irmãos. (*)

Uma sua aliada, Vitvitskais, que viajou muito no grupo e o ajudou nos ateliês de "conserta tudo"`:

"A companheira que acabava de reencontrar era a inimitável e intrépida Vitstiskaia, que andava sempre vestida de homem. Participara de todas as nossas expedições perigosas nos confins da Ásia, África, Austrália e ilhas vizinhas." 

Nessas expedições, nessas aventuras, há momentos de crueldade. Para improvisarem uma jangada e aproveitarem o fluxo de um rio, resolveram abater todas as cabras que haviam servido tanto para carregar as bagagens como para a subsistência com a sua carne. Eram consideradas até então, aliadas.

Gurdijieff assim relata:

“No dia seguinte, começamos a matar as cabras, que ainda na véspera considerávamos, sinceramente, como nossas amigas e associadas em nossos esforços para superar as dificuldades da viagem.”

E ironiza esse ato bárbaro, se referindo a uma “bela manifestação cristã-muçulmana...”.

Os homens notáveis relacionados no livro são nove, incluindo o pai do Autor.

Quanto a este houve entre outros conceitos estes:

1º - Amar seus pais;
2º - Guardar sua pureza sexual;
3º - Demonstrar cortesia com todos, ricos ou pobres, amigos ou inimigos, detentores do poder ou escravos, qualquer que seja religião...
4º - Amar o trabalho pelo trabalho e não pelo ganho.

Entre as muitas máximas de seu pai, lê-se esta:

“Uma verdadeira miséria sobre a terra são as implicâncias das mulheres.”

O padre Borsh, um dos notáveis, dissera que o homem e a mulher para atingirem um grau de convivência devem ter o tipo correspondente para que se completem. Em assim não sendo perdem quase todas as manifestações essenciais de sua individualidade.

E completava:

“Eis porque é absolutamente necessário que todo homem tenha perto dele, no processo de sua vida responsável, um ser do sexo contrário, de tipo correspondente, para que se completem mutuamente sob todos os aspectos.”

Então os notáveis que eu tenha apreendido, não transmitiram sempre algo revelador que não fosse a bondade, a espiritualidade e a amizade.

E um detalhe: embora a cada capítulo, um dos notáveis é destacado, no texto respectivo nem sempre se fala muito dele. O autor aproveita em cada capítulo para relatar suas experiências, suas aventuras e atitudes nem sempre... exemplares




Num velho livro publicado no início da década de 60, “Mente ou Alma” do médico psiquiatra Alberto Lyra, que estudou a psicologia de Gurdijieff, revela que sua personalidade, para os que o conheceram, irradiava força fora de toda comparação, liberdade interior além de ser trabalhador incansável.


Extraído do livro de Lyra, escrevera Peter Ouspensky, seu principal discípulo, sobre sua psicologia:

“A psicologia de Gurdijieff é extremamente prática e racional, porque ela mostra de maneira lógica como é o homem, quais são as suas enormes limitações, mas aponta, também, os meios para superá-las. Sob esse ponto de vista leigo e desprovido de qualquer sentimento religioso, mostra que, afinal de contas, o caminho que o homem tem de trilhar é o mesmo que lhe tem sido indicado pelos diversos instrutores religiosos de todos os tempos.”

(*) Na década de 20 do século XX, ao fundar seu "Instituto para o Desenvolvimento Harmonioso do Homem" em Nova York, ao ser questionado de onde vinha o dinheiros para seus empreendimentos, num tipo de apêndice do livro, em muitas páginas ele trata com detalhes essa "questão material", isto é, quando e como conseguiu recursos para todas suas viagens e projetos. Relata seu trabalho intenso, enfrentando toda sorte de desafios e, às vezes, revertendo situações adversas com novas inspirações e novas iniciativas. 

Um aforismo dele: Quanto piores as condições de vida, melhores serão os resultados do trabalho - contanto que nos lembremos continuamente do trabalho.”

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

PARIS É UMA FESTA de Ernest Hemingway

Livro 19





Não me parece seja este livro daqueles mais festejados do grande escritor americano. São crônicas dos tempos, na década de 20 do século XX, em que vivia em Paris usufruindo das suas belezas e, sobretudo, da boemia. Gostei muito.





Ernest Hemingway reside, então, em Paris, levando vida modesta, escrevendo contos nem sempre aceitos ou publicados pelos jornais e revistas que ele remetia.

E essa dificuldade não era só sua. Os outros escritores – muitos dos quais se consagrariam mais tarde - naqueles dias também não tinham seus escritos publicados com facilidade. E quando ocorriam as publicações, os valores pagos não eram expressivos.

Relata o Autor que, para fazer economia, passava fome mas tinha o sentimento inspirador de que Paris era uma espiração:

“De qualquer maneira, éramos ainda muito pobres e eu vivia tendo que enganar minha mulher, dizendo que recebera convites para almoçar fora. Passava duas horas andando pelos jardins de Luxemburg e, depois, voltava para contar-lhe maravilhas dos tais almoços”.

Uma frase que abre o livro escrita em 1930 para um amigo:

“Se você teve a sorte de viver em Paris, quando jovem, sua presença continuará a acompanhá-lo pelo resto da vida, onde quer que você esteja, porque Paris é uma festa móvel.”

Tinha por hábito trabalhar, escrevendo seus contos num café, um dos melhores de Paris, o “Closerie des Lilas”. Ali, o encontro com os amigos escritores.

A escritora Gertrude Stein ao ouvir do patron de uma oficina que admoestava um mecânico que nada fizera no seu Ford exclamara:

- Vocês todos são uma génération perdue.

Ao que ela emendou tendo Hemingway presente:

- É isso mesmo o que vocês são. Todos vocês, essa rapaziada que serviu na guerra. Vocês são uma geração perdida.

Hemingway nunca aceitou essa expressão de “geração perdida”.

Mas, preservava sua amizade com a escritora Gertrude Stein e quando “já não era a mesma coisa” observou:

“Quando uma antiga amizade não se refaz por completo, é na cabeça que a gente sente mais. Mas do que servem essas palavras? A coisa era muito mais complicada do que isso, e jamais conseguirei explica-la direito.”

[Numa legenda sob a foto de Gertrude Stein no livro “Paris é uma festa” lê-se que fora autora de literatura experimental e influente nos círculos culturais de vanguarda, colocou Hemingway sob suas asas e lhe deu caloroso apoio].

O escritor Scott Fitzgerald, autor do livro “O grande gatsby” filmado pelo menos três vezes por Hollywood em épocas diferentes, certo dia revelou a Hemingway um comentário de sua esposa que se referira não ao desempenho mas ao volume do seu órgão genital.

Hemingway, o tranquilizou quanto ao tamanho, ressaltando que a esposa do amigo enlouquecia, recomendando que fosse ao Louvre e examinasse a proporção das estátuas:

- Depois, vá para casa e olhe-se um espelho de perfil.


Há muito mais...



.//. 

Ernest Hemingway suicidou-se em 1961. Filme relativamente recente, “Papa”, revela sua intimidade nos últimos anos de sua vida atribulada.

Era um suicida em potencial, diga-se.

Poucos anos antes do gesto extremo que consumou em 1961, ele se queixava de que não conseguia mais escrever e que se tornara um impotente sexual.

Recebia carinho dos amigos e da esposa, embora esta muitas vezes se revelasse agressiva e irascível comportamento que poderia ter-lhe enfraquecido a “força do seu espírito”.

















Jardim de Luxemburgo - Paris