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domingo, 22 de setembro de 2019

ODISSÉIA de Homero

LIVRO 63

(V. obs. no final)

Há um filme de 1954 estrelado pelo centenário Kirk Douglas, um filme italiano que trata do poema de Homero.

Nesse filme, muito bem feito, o Ulisses de Douglas, era valente, consciente de sua autossuficiência constituindo-se num agradável herói, sentimento que não se tem hoje, salvo exceções, na  arte cinematográfica.

O decidido Ulisses de Kirk Douglas não tinha muito com o "industrioso" Ulisses de Homero, embora valente, o saqueador de cidades, chorava de saudade de sua Ítaca, de sua esposa Penélope - "a mais cordata das mulheres" e de seu filho Telêmaco.

Esses sentimentos, no longo poema de Homero, brotaram pela série de desafios enfrentados por Ulisses - especialmente as dificuldades impostas pelo deuses imortais para que voltasse ele para o lar, para Ítaca, após participar da guerra de Troia - o livro o coloca mesmo como um dos membros que conduziram o cavalo monumento de madeira, "presente de grego" aos troianos que os levou à derrota.

O poema - que li numa boa edição em prosa mas que não difere muito de edição da década de 40 que manteve o formato da poesia - para mim realça estas virtudes: fidelidade, hospedagem respeitosa e coragem. 


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Mas, quem foi Homero?

Poeta épico grego, cuja data de nascimento é controversa, mas pode-se situar há cerca de 900 anos antes de Cristo. Teria vivido uns 30 anos, pouco mais.

No seu poema os deuses do Olimpo e os homens mortais tinham relação muito próxima. Muitas vezes os mortais recebiam auxílio ou castigo direto de Zeus e de outros deuses tanto que na leitura do poema a deusa Atena, de "olhos brilhantes" protege Ulisses até que voltasse a Ítaca mesmo enfrentado todo tipo de desafios e figuras monstruosas.



Depois de anos de ausência, após participar ativamente da guerra de Troia, o destino de Ulisses era uma grande dúvida: fora morto nalguma batalha? Ele teria morrido num naufrágio? Ou estaria vivo ainda prisioneiro nalguma terra distante.


Essa dúvida magoava demais sua esposa Penélope e seu filho Telêmaco já adulto.


Então, com essa dúvida, Telêmaco viaja por outras terras tentando obter informações seguras do paradeiro do pai, sem sucesso.

Ao mesmo tempo, sua mãe chorava muito a ausência do marido e, tanta a demora de notícias que na sua mansão, acumularam-se varões de Ítaca pretendentes em receber um sim matrimonial de Penélope. Eles acreditavam que Ulisses morrera pelo que Penélope viúva, de notável beleza, poderia se casar com algum dos pretendentes, aquele mais rico e que lhe oferecesse os presentes mais valiosos.

Esses pretendentes praticamente viviam na mansão de Ulisses, alimentando-se de seus rebanhos atitude abusada porque dilapidavam suas riquezas. Houve revolta desses assediadores quando descobriram que o véu tecido por Penélope, futura mortalha para embalar seu sogro Laertes ao morrer, se casaria quando estivesse pronta, mas à noite desmanchava o que de dia tecera. 

Telêmaco ao retornar da viagem sem a confirmação se seu pai vivia ou morrera, cuidara que não fosse assassinado pelos pretendentes que o tinham como empecilho ao casamento de sua mãe.

Por sete anos viveu Ulisses com a deusa-ninfa Calipso na Ilha Ogigia depois que sua nau fora destroçada e mortos seus companheiros por violenta tempestade como castigo imposto por Zeus, a pedido do deus Helio  pelo abate de vacas deste criadas em suas terras. 

Linhas a frente, volto a esse episódio.

Calipso queria ter Ulisses como esposo. E ele era o amante dela.

Tal perdurou até que a deusa Atena interveio por Ulisses perante Zeus, que determinou que Hermes fosse até Calipso para lhe comunicar que Ulisses deveria retornar à sua terra natal, Ítaca. 

Calipso  promete a Ulisses, se ficasse se tornaria imortal. Para voltar a esposa Penélope em Ítaca, enfrentaria grandes dificuldades. Mas, ela o auxilia na construção de uma jangada e ele parte

Essa embarcação é destruída por ato de Posídon que provocara severa tormenta no mar.

O herói se salva chegando à terra dos Féaces.

Recebido com honras pelo rei Alcino, mesmo sem que fosse conhecida sua identidade, depois de um tempo, afirma que era Ulisses e, a pedido do monarca, relata toda sua odisseia até chegar ali.

Após saquear a cidade de Ísmaro, é atacado pelos cícones.

Na fuga suas naus são desviadas para terras do Ciclopes e lá se
depara com o gigante Polifemo, dotado de apenas um olho, hábil pastor. 

O gigante os aprisiona em sua caverna, devora seis dos companheiros de Ulisses e mantém refém os demais com a mesma finalidade.

Então, Ulisses e seus companheiros sobreviventes, embebedam com vinho Polifeno, preparam um grande tronco fino comprido, aproveitam sua embriagues e o cegam. 

Na fuga que se segue, Polifeno tenta os atingir com enormes pedras atiradas a esmo e sem direção ao mar.

Polifeno, filho de Posídon, roga ao pai que nunca permita que Ulisses retorne ao lar, a Ítaca.

Aporta na Ilha de Eólia terra dos guardiões do vento, onde vivia Éolo. Bem recebido, para que Ulisses e os seus companheiros partissem, Éolo garantiu que os ventos os conduziriam ao destino. Para tanto lhe presenteara com um odre que aprisionava os ventos desfavoráveis. 

Mas na viagem, esse odre foi aberto desencadeando o sopro de ventos desfavoráveis. Suas naus voltam à Ilha de Eólia. Éolo não os recebe de novo e, então, aportam na terra dos Lestrigões.

Dos dois grupos para conhecer a região, um deles, no qual não estava Ulisses, dera-se com Circe, feiticeira que lhes ofereceu uma bebida, transformando-os em porcos.

Hermes aparece para Ulisses e lhe ensina o truque para salvar seus companheiros vítimas do feitiço: ervas lhe foram entregues que impediriam o feitiço de Circe.

Assim, feito, Ulisses por recomendação do deus, ameaça matá-la. Circe assustada liberta seus companheiros do feitiço.

Depois de um ano com Circe e seus banquetes, Ulisses lhe informa que partiriam para a terra natal.

Mas, Circe lhe diz que, antes, deve viajar até a região de Hades - 
morada dos mortos - e da "terrível Perséfone" para consultar o adivinho Tirésias, já morto mas que mantinha os mesmos poderes de quando vivia. (*)

Ulisses chora muito esse novo desafio, mas para lá vai.

A primeira alma que aparece, já na região de Hades, é Elpenor, companheiro de Ulisses que morrera de acidente na mansão de Circe e estava, ainda, sem sepultura.

Para receber Tirésias imola um carneiro negro e deixa correr "o seu negro sangue". (**)

Este, após beber o "negro sangue", informa que a chegada de Ulisses a Ítaca será dificultada pelo "Sacudidor da terra ", Posídon, que pretenderia vingar a cegueira imposta ao seu filho Polifeno.

Mas, disse, também, o adivinho, que conseguiria escapar das tormentas aportando na ilha do Tridente mas não deveria se aproximar dos carneiros e vacas do deus Hélio.

Ulisses, depois de deixar Tirésias encontra sua mãe e, emocionado, tenta abraçá-la mas, ela evitava a aproximação como se "fosse uma sombra ou um sonho."

Todos os mortos se aproximaram de Ulisses, tentando expor suas angústia. 

Reconheceu a bela mãe de Édipo, o aqui chamada de Epicasta que se casara, sem o saber, com o próprio filho. (***)
  
Viu Tício, sendo atacado por dois abutres que dilaceravam seu fígado por ter violentado Leto, a "ilustre esposa de Zeus".

E outros conhecidos de Ulisses sofriam castigos. (****)

Todos estavam ávidos em sorver o "sangue negro" dos animais abatidos. 

Então, vencida essa etapa, volta à mansão de Circe para sepultar seu companheiro Elpenor.

Ela o avisa para ser cauteloso quando chegasse na região das sereias porque seu cantar melodioso encantava os viajantes que não resistiam à sedução e por lá ficavam cativos, numa espécie de deslumbramento.

Também haveria que cuidar muito quando se aproximasse da região de Cila e Caríbedes, devendo ficar mais próximo de Cila.

Para não ouvir o canto das sereias, ele obriga que seus companheiros tapem os ouvidos com cera. Ulisses pede para ser amarrado num mastro e suporta  a sedução das sereias que 'inundavam  seu coração'. 

Cila era um monstro horrendo com 12 pés e seis cabeças descomunais das quais não há quem escapasse. 

Circe recomendara a Ulisses que não empunhasse qualquer de suas armas para não provocar Cila.

Esquecido desse conselho, Ulisses arma-se. Cila atacou a nau  apreendendo e devorando seis dos companheiros de Ulisses,

Caribedes tinha o poder, ao engolir a água salgada e quando a vomitava o mar se tornava revolto e efervescente.

Mas, ao escaparem, mesmo com os seis companheiros devorados aportam na ilha de Helio. 

Os companheiros de Ulisses, quando não havia mais alimentos, abatem vacas do deus Helio que pede a Zeus que todos eles sejam mortos como castigo.

Tal ocorre, apenas Ulisses é poupado e ele e atirado na ilha da deusa Calipso. 

Dai, vai em busca de sua terra, Ítaca, numa jangada e, poupado, chega à terra dos Féaces.

Depois de ouvir tudo o que Ulisses enfrentara, Alcino, rei dos Féaces, resolve equipar uma nau e conduzi-lo a Ítaca, não sem antes dar-lhe muitos presentes.

E Ulisses chega a Ítaca. A deusa Atena que o protegia, o "transforma" num mendigo irreconhecível de tal ordem a que conhecesse a quem poderia confiar e quem o traia.

O único que o reconheceu foi seu fiel cão Argos, meio abandonado, que se ergue à chegada do dono.

Seu porqueiro fiel se emocionava por acreditar na morte de seu senhor.

Algum tempo depois Ulisses se dá a conhecer a seu filho Telêmaco e ambos engendram um plano para se vingar dos pretendentes matando todos eles.

Ulisses mendigo aos poucos vai se aproximando de sua mansão sob escárnio e protesto dos pretendentes que ainda assim lhe davam algum alimento como esmola.

A velha escrava Euricléia ao lavar os pés do mendigo por ordem de Penélope, reconheceu que era Ulisses por uma cicatriz profunda na perna que ficara após o ataque de um javali. Ele pede à escrava que mantenha o segredo de sua identidade.

Penélope também não o reconhecera e a ela sugere uma prova aos pretendentes: que aquele que vergasse o arco de Ulisses, fixasse a corda e armá-lo, ao mirar uma flecha, deveria ela ultrapassar o furo de 12 machados devidamente postos em linha.

Telêmaco parecia  conseguir vergar o arco, mas Ulisses com um gesto imperceptível o impediu de prosseguir.

Então o arco é dado ao mendigo sob protestos. Este não só consegue vergá-lo como mira a flecha que ultrapassa o orifício dos machados.

Feito isso, apoiado pelo porqueiro Eumeu, com o boieiro Filécio  e Telêmaco, começam a a matar todos os pretendentes.

E conseguem. Os corpos são levados para um local na mansão enquanto Ulisses vai em busca do pai Laertes nos campos porque esperava a reação de toda Ítaca. Foram mortas figuras destacadas da cidade. 

É nessa visita emocionada entre pai e filho é que se sabe que o velho Laertes cultivava frutas em seus campos. Essa é única referência a esse tipo de alimento em toda a Odisseia. A predominância sempre fora nos festins constantes, a carne. o pão e o vinho.

Zeus, todavia, a pedido da deusa Atena, decreta a paz em Ítaca, mesmo após aquelas mortes todas.

Quando Penélope, "a mais cordata das mulheres",  finalmente reconhece que o mendigo estrangeiro era Ulisses, agora devidamente apresentado com vestes ricas, se emociona muito e seguem para recuperar o amor de tantos anos passados.

Haviam se passado 10 anos.

MORAL DA HISTÓRIA

A "Odisseia" de Homero traz no seu conteúdo, timbres de fidelidade matrimonial, o amor filial, a coragem e a sensibilidade porque o herói chorava. Mas, também, a vingança para salvar a honra. Todos os sacrifícios, os percalços e os monstros extraordinários (Polifeno e Cila) vividos ou enfrentados por Ulisses, podem ser qualificados como as dificuldades da própria vida de cada um e, quanto aos monstros aqueles pensamentos de ódio, destrutivos, que frequentemente habitam a mente mais de uns do que de outros.
E os deuses sempre dirigindo a vida e a morte do mortais. 
E há que destacar a fidelidade de Penélope.

Minha avaliação: gostei

A "Odisseia" é a "continuação d' "A Ilíada", também de Homero. (*****)

Referências:

(*) Na "entrevista" de Sócrates, diz ele que há almas perdidas fora do mundo invisível que temem a região de Hades, afastam-se do corpo e se tornam visíveis, vagando em volta dos túmulos, dos cemitérios, fantasmas medonhos, espectros assustadores.
Acessar: 

(**) Tirésias é o mesmo adivinho da obra teatral "Edipo Rei" de Sófocles.
Acessar:

(***) Epicasta  na obra de Sófocles, mãe de Édipo com quem se casa sem o saber, tem o nome de Jocasta.
Acessar: 

(****) A descrição de Hades e seus mortos sendo castigados  num ambiente obscuro, medonho, lembra um pouco o "Inferno" de Dante Alighieri na "Divina Comédia",]
Acessar:

(*****) Acessar: "A Ilíada" de Homero

Observação: Esta resenha / comentários está melhor desenvolvida no reunião das três obras, Ilíada e Odisseia de Homero e Eneida de Virgílio. Os textos foram revisados e ampliados.

quinta-feira, 1 de agosto de 2019

O MORRO DOS VENTOS UIVANTES de Emily Brontë

LIVRO 62



O livro foi lançado em 1847, a obra única da Autora.

É considerado um clássico da literatura mundial tanto que é referenciado até hoje.

Quando tentei lê-lo há muitos anos, impressionei-me pelo início meio "fantasmagórico" de suas primeira páginas mas parei por aí.

Hoje, e por causa disso, voltando a ler, achei que, e vai aí um sacrilégio literário, há páginas e páginas que penso poderiam ser omitidas, sem prejuízo do enredo.

Na verdade é a história da rudeza do personagem central, Heathcliff, malvado mesmo.

Ellen Dean (Nelly) que fora governanta da casa e cuidara das crianças, relata a história do "Morro dos ventos uivantes" a Lockwood que por um tempo fora inquilino de Heathcliff na "Granja dos tordos". Ela chegara mesmo a considerá-lo demoníaco.

Heathcliff foi trazido pelo patriarca  Earnshaw após encontrar o menino abandonado nas ruas de Liverpool. Sem ter como protegê-lo ou quem o protegesse resolveu trazê-lo para sua moradia, no "Morro dos ventos uivantes".

Ele era odiado pelo filho Hindley Earnshaw. O pai não se cansava de maltratá-lo criando-se, então, desde a tenra idade um sentimento de ódio que se prolongou por toda a história.

Mas, Heathcliff se torna muito amigo da filha do patriarca, Catherine que, com o tempo, se torna um amor até meio sobrenatural, pois Heathcliff sonhava e falava com ela depois de morta.

Ellen que dela cuidou desde a tenra idade, se referia ao seu temperamento sensível,  chorona, emotiva e histérica.

Quando Heathcliff descobre que Catherine se casaria com o Edgard Linton, dono da propriedade "Granja dos Tordos" nas vizinhanças do "Morro", ele desaparece e retorna poucos anos depois, homem já feito. 

Heathcliff e Edgard eram inimigos inconciliáveis, até porque Cathy, sua esposa, recebia com frequência em sua casa seu amigo de infância.

Edgard e Catherine eram pais de Catherine Linton. Viúvo, pois Catheerine falecera jovem, Edgard amava sua filha Cathy,

Quanto a Hindley que se tornara um alcoólatra após a morte de sua esposa a vingança de  Heathcliff  deu-se sem dificuldades. 

E na impossibilidade de reação de Hindley às imposições de Heathcliff passou este a assumir a propriedade do "Morro dos ventos uivantes", criando ali, então, um ambiente amargo, opressivo, triste, de intolerância.

Hindley era pai de Hareton tratado com desprezo e a pontapés por Heathcliff. Era deixado sem qualquer instrução, pelo que era motivo de deboche por seus deslizes, tornando-se tímido.

A irmã de Edgard Linton, Isabella, apaixona-se por Heathcliff  e com ele se casa, sendo maltratada pelo marido, que chegara a agredi-la fisicamente.

Tiveram um filho, Linton Heathcliff, um jovem sensível, doente, afetado por aquele clima pesado do "Morro" por atos de desprezo do pai que não lhe dava qualquer afeto.

Heathcliff obriga que ele se case com Cathy mantendo-a para isso, numa espécie de prisão domiciliar no "Morro", mas depois de uns meses ele morre doente.

Falecendo Edgard, Heathcliff  toma posse também da "Granja dos Tordos" porque era viúvo da irmã do proprietário.

Viúva, convivendo Cathy com seu primo Hareton dele se aproxima, começa a auxiliá-lo na leitura de livros de tal modo que ele começa a se desenvolver (Ah, a educação!)

Heathcliff, nunca concordou com a aproximação de ambos mas, por fim, se casam.

No final da obra, a narradora Ellen registra pouco tempo antes da morte, "aqueles olhos negros e encovados. Aquele sorriso e aquela palidez cadavérica! Não parecia o sr. Heathcliff, mas um demônio..."

O livro é angustiante, porque desenvolvido naquele ambiente obscuro, opressivo do "Morro dos ventos uivantes", mas algumas páginas cansando pelo que considerei excessos.

Mas, afinal, dizer o quê? Basta lembrar que a obra sobrevive a 172 anos, consagrada e enredo de filmes (Wuthering Heights, no original).

MORAL DA HISTÓRIA:

Num ambiente obscuro, fechado pelo tempo, úmido, a maldade se revela pelo modo de agir de Heathcliff, egoísta, ambicioso e frio. Jamais reagiu de modo diferente dos tempos de jovem rejeitado pelo filho legítimo do patriarca Earnshaw que o adotara. Heathcliff se vinga de todos, adquire pela morte dos donos as propriedades ("Morro" e "Granja dos Tordos") mas nunca saíra daquele lugar comum de amargura. Um final se não feliz, pelo menos amargo: o casamento de Cathy com seu primo Hareton, desprezado que ela praticamente educou.

Minha avaliação: não gostei





 


quarta-feira, 26 de junho de 2019

LEONARDO DA VINCI de Walter Isaacson

Livro 61


Trata-se de valiosa obra biográfica de Leonardo da Vinci, que abrange 556 páginas do texto da vida do mestre da Renascença - que pode ser qualificada como uma época de avanço das artes, de progressos materiais e das ciências - um leitura longa mas muito agradável porque o Autor falando da vida de Leonardo, não poucas vezes se refere aos costumes de Florença e Milão nos séculos XV e XVI. (*)

Leonardo nasceu em abril de 1452 em Vinci, localidade próxima de Florença, dai o seu nome, falecendo, doente, aos 67 anos, em maio de 1519. Era filho bastardo, mas seu pai Piero da Vinci um tabelião próspero, o ajudaria seguidas vezes na obtenção de comissões pelo seus trabalhos de pintor.

Leonardo foi aprendiz de Verrocchio, exímio pintor e escultor que num dado momento reconheceu que seu pupilo o superara na arte da pintura com aqueles sombreamentos e detalhes que pareciam dar vida, movimento às personagens retratadas.

O Autor entusiasta de suas principais obras, principalmente os quadros Mona Lisa (contração de maddona / madame) e a Virgem e o Menino com Santa Ana tanto que recomenda olhar com atenção algumas vezes os quadros para notar a impressão de mudança na expressão dos restos pintados.

Há quantos especialistas que lamentam, e muito, que Leonardo, embora comissionado, não começou ou não concluiu obras como  "A Batalha de Anghiari" e a "Adoração dos Magos", que poderiam se constituir em outras obras primas, como foram, além dessas peças citadas,  "A Ultima ceia".

Quanto a esta última ("A última ceia"), pintada na parede do refeitório do convento de Santa Maria delle Grazie, fora ela restaurada mais de uma vez porque a tinta começou a descascar e perder aquele "poder" original (ver no quadro abaixo).

É considerada, essa obra, e também Mona Lisa, "obras da humanidade".







Mona Lisa








Neste meu canto de encantos e desencantos, me impressiona muito a pintura "Virgem dos rochedos" a versão que está em Londres.






Virgem dos rochedos












Mas, Leonardo, num dado momento de sua vida, à medida que ia amadurecendo, "não pegava num pincel" —  salvo em situações muito particulares, como no caso da pintura de Mona Lisa —,  estudando com afinco os efeitos da ótica,  geometria, engenharia mecânica, matemática, música.

Ele pesquisou muito o corpo humano, dissecando cadáveres para descobrir músculos e veias, o funcionamento do coração -,

De todas as máquinas que imaginou e desenhou (máquinas de guerra, máquinas voadoras - estudando o voo dos pássaros -, etc.), nenhuma foi efetivamente fabricada mas seus esboços ultrapassaram os séculos e se apresentaram como premonição de helicópteros e armas de defesa.

Mesmo sendo vegetariano por amar todas as criaturas, uma arma de guerra que projetara tenha efeitos se cruéis adotada porque dividia ao meio as vítimas atingidas por ela, O Autor que diz tudo de Leonardo, o reverencia, deixa escapar que,

"Talvez isso seja mais  um vislumbre de sua mente perturbada. Dentro de sua caverna escura residia uma imaginação demoníaca".

E o pior é que hoje as armas de guerra são de letalidade apocalíptica. Talvez ele tenha vislumbrado avançando no tempo.

Ele era apaixonado pela água, do seu fluxo, a ponto de indagar porque nas margens dos rios, elas fazem redemoinhos.

E nesse interesse por tudo, ele se debruça sobre o "homem vitruviano" um modelo de medidas do corpo humano que guardam proporcionalidades,  proposto por Marcos Vitrúvio Polião, que nascera por volta dos anos 80 AC.

Vitrúvio apresentara essas proporções do corpo humano, por exemplo, a extensão dos braços abertos, corresponde à altura do indivíduo, o cumprimento dos pés, corresponde a 1/6 de sua altura (Leonardo corrigiu para 1/7 da altura).

Essas proposições de Vitrúvio, despertaram o interesse de Leonardo que em tudo queria aprender e apreender, ele desenha sua versão, um desafio matemático da quadratura do círculo, a analogia entre o microcosmo do homem e o macrocosmo da terra...

Homem vitruviano

Não bastasse a sua genialidade por tantos temas que interessavam à época ou apenas a ele, era também talentoso "animador da corte", produzindo de "efeitos especiais" nos espetáculos teatrais que geria, agradando seus promotores.

O "Homem tudo", Leonardo, uma celebridade do seu tempo reverenciado pela sua genialidade, era homossexual, sendo denunciado por essa condição, mas as denúncias não prosperaram porque não houve testemunhas que confirmassem. 

No livro, seu relacionamento com mulheres se resumiu aos quadros geniais que pintou.

Descrito como um homem bonito, alto, musculoso, cabelos cacheados andava por Florença ou Milão com roupas extravagantes pendendo para a cor rosa.

Seu pupilo suportado, porque era um "diabinho" fora Salai que pode ter sido mais que um aprendiz. Fora beneficiado pelo testamento de Leonardo.  Outro aprendiz, Francisco Melzi esteve muito com o mestre tanto que também foi beneficiado no seu testamento.

Homossexuais eram, também, Michelângelo, o mestre religioso que pintou o teto da Capela Sistina — há figuras polêmicas nessa obra —, que se comportava com o que seria um "hippie" hoje, com poucos banhos, "desafeto" de Leonardo, a quem chegou a importunar. Botticelli contemporâneo também apontado como homossexual pintou obras primas, uma delas, O Nascimento de Vênus.

Leonardo não deixou nada publicado apenas nos seus cadernos de anotações, que eram muitos. Neles todas suas anotações, tudo o que imaginava, conclusões de pesquisas, desenhos, principalmente de órgãos humanos que fazia após as muitas dissecações de corpos masculinos e femininos e, nessas, para desvendar o seu funcionamento, suportava o odor do putrefação.

Já na velhice dos seus 60 anos (faleceu aos 67) demonstrava mais idade do que tinha.

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Deixou ele muitos projetos inexequíveis para sua época mas que se constituem propostas surpreendentes por terem sido pensados exatamente, na sua época, por ele, Leonardo.

Muito do que descobriu e deixou registrado nos seus cadernos se confirmariam séculos depois.

O Autor deixe entrever na sua admiração pelo gênio Leonardo, alguma decepção por não ter ele concluído pinturas iniciadas e que poderiam se constituir, hoje, obras de admiração e estudos, como as outras que concluiu.



CÓDIGO DA VINCI de Daw Brown

O Autor faz referência ao Livro de Daw Brown que desenvolve sua história no personagem de São João na obra "A última ceia" de Leonardo que seria um personagem andrógino que representaria, então, Maria Madalena, a fiel seguidora de Jesus e, segundo aquele Autor do bestseller - que virou filme de sucesso - seria ela mesmo sua esposa.
Na obra esse personagem está à esquerda quase apoiado naquele que seria Pedro bem ao lado de Jesus, abrindo-se um espaço em V entre ele e Jesus, "cortado" na vertical por uma guarnição da janela.



Seria, essa interpretação de Brown, uma "teoria da conspiração".

Isaacson rejeita essa "interpretação" informando que Leonardo tinha talento para desenhar figuras andróginas que "começam com o anjo em O batismo de Cristo, de Verrocchio [são duas crianças, não aparentando que uma delas tenha feições andróginas!] e continuam até São João Batista pintado em seus últimos anos". 

Não há referências de que Leonardo fora Grão-Mestre do Priorado de Sião. 

Li as 556 páginas com muito prazer, leitura leve, texto simples que, creio, é também um mérito do tradutor. O livro não é para uma única leitura.


(*) O livro é composto no total de 633 páginas que incluem além do texto propriamente dito da vida e obra de Leonardo, "abreviações de fontes citadas no livro", "notas" referenciadas no texto e "índice".


segunda-feira, 20 de maio de 2019

ÉDIPO REI de Sófocles

Livro 60

VER INFORMAÇÃO NO FINAL DO TEXTO


Sófocles nasceu em 496 e faleceu em 406 a.C
Além de dramaturgo premiado  na Grécia, ocupou altos cargos políticos pela amizade com Péricles, este um estadista influente, orador emérito e líder da democracia na "era de ouro" de Atenas.


"Édipo Rei" de Sófocles. escrita lá pelos anos 427 antes de Cristo constitui-se amarga tragédia grega.

Essa peça teria inspirado Sigmund Freud no desenvolvimento de sua teoria psicanalítica do "complexo de Édipo", por esta frase proferida por Jocasta na peça:

"Não tenhas medo da cama de tua mãe:
quantas vezes em sonho um homem dorme com a mãe!

A lenda de Édipo que antecede a peça teatral de Sófocles contém estes episódios conhecidos:

Édipo era filho do rei Laios e de Jocasta, reis de Tebas.

A profecia obtido no oráculo de Delfos, dera ao menino um destino horrível: mataria seu próprio pai e desposaria sua mãe.

Por isso , fora ele atirado ao abandono numa várzea do Citerão pela própria mãe, Jocasta, com um grampo que prendia seus dois pés para ser morto. 

Mas salvo por um pastor e depois adotado como filho legítimo pelos reis de Corinto, Políbio e Mérope que não tiveram filhos.

["Édipo" tem o sentido de "pés inchados", exatamente pelos grampos que prendiam seus pés, quando encontrado].

Édipo soube da profecia e imaginando que fosse Políbio e Mérope, seus pais verdadeiros deixa Corinto e ruma para Tebas.

No trajeto, por um motivo fútil, uma rusga, Édipo mata quatro dos cinco viajores.

Tebas era atormentada pela esfinge, monstro com cabeça de mulher e corpo de animal que devorava a todos que não desvendassem seus enigmas.


Na vez de Édipo o enigma proposto pela esfinge já se preparando para o banquete:

Qual o animal que tem quatro patas de manhã, duas ao meio-dia e três à noite”?

Édipo dá esta resposta:


- É o homem. Pela manhã ele engatinha com quatro ‘patas’; ao meio-dia é o adulto que anda com as duas pernas e à noite (na velhice) ele se vale de uma bastão, três pernas. 

Vencida, a esfinge se destrói atirando-se num precipício.

Havia a promessa de desposar Jocasta e se tornar rei de Tebas aquele que vencesse a esfinge.

E Édipo casa-se com Jocasta tornando-se rei de Tebas.

ÉDIPO REI, DE SÓFOCLES















A tragédia de Sófocles tem os seguintes personagens principais:

Édipo, rei de Tebas
Sacerdote
Creonte, irão de Jocasta
Tirésias, o adivinho cego
Jocasta, rainha de Tebas
Emissário de Corinto
Pastor da casa de Laios
Arauto do palácio real
Coro dos anciãos de Tebas.

Édipo se depara com multidão nas suas portas e indaga os motivos  daquela aproximação.

O sacerdote ressalta as tragédias que  assolam Tebas e acentua:

"Com seu archote flamejante a peste lança-se sobre nós e dizima a cidade; fica vazia a casa dos tebanos e o reino tenebroso dos infernos vai-se enchendo de lágrimas e gritos."

Édipo respondeu que esperava por Creonte, seu cunhado, que fora consultar o oráculo de Delfos.

Creonte se aproxima e diz que os males de Tebas se devem à morte de Laios, o rei que Édipo sucedeu pelo que haveriam que ser descobertos os seus assassinos e punidos severamente. 

Acreditava-se que Laios fora morto por um bando de ladrões.

Édipo ordenou que fossem os assassinos descobertos.

Então, fora chamado Tirésias, um vidente que poderia desvendar o assassinato de Laios.

Édipo o interroga e ancião Tirésias que reluta em fazer revelações mas é de tal modo desafiado que acaba dizendo  que o rei teria um grande revés e que o homem procurado "passa por estrangeiro mas se verá que é natural de Tebas e essa descoberta lhe será cruel..."

Édipo se revolta e ataca Creonte por ter trazido Tirésias e diz que ele conspirava e desejava conquistar o trono.

Creonte diz, 

"Que caia sobre mim a maldição de Zeus, se fiz alguma coisa do que dizes". 

Quando Jocasta entra em cena tentando apaziguar o marido e o irmão, repete a versão de que Laios fora assassinado numa encruzilhada por salteadores.

Édipo então indaga da compleição de Laios e se era grande sua comitiva ao ser morto.

À resposta de Jocasta de que Laios tinha semelhança com ele e de que eram apenas cinco na comitiva, Édipo passou a se preocupar. 

Jocasta informa que um servo se salvara do massacre. 

Era um pastor que ao ver Édipo como rei antes pedira para se afastar de Tebas. 

Foi, então, chamado para explicar o que vira naquele dia do assassinato.

Entra o emissário vindo de Corinto e informa que a cidade deseja que também seja de lá, Édipo, o rei, porque Políbio falecera de velhice.

Acreditando que Políbio fora seu verdadeiro pai, Édipo revela sua "libertação" da profecia trágica poque não fora ele quem provocara a morte do rei de Corinto.

O emissário informa a Édipo que Políbio e Mérope eram seus pais adotivos e revela que ele salvara o bebe recém nascido abandonado na várzea do Citarão entregue por um pastor. 

Jocasta, a partir daí começa a ficar preocupada,

"Pelos deuses! Se tens amor à vida, põe fim a essa busca! Eu não suporto mais!"

Chega o pastor e depois de muito ameaçado diz a verdade. 

Recebera das mãos da rainha o menino para ser morto porque dele havia grave profecia.

Amaldiçoa Édipo aquele que o salvara, que desprendera seus pés propiciando que a profecia se cumprisse e que,

"Eu não viria a assassinar meu pai 
nem seria culpado como amante
da criatura que me pôs no mundo...
Agora não há deus que me redima:
sou filho de uma mulher corrompida,
rival do homem que me deu a vida. 
  
Foi então informado de que Jocasta estava morta. 

Édipo em desespero,

"Onde está minha esposa que não é esposa alguma, é um útero danado que me pariu e pariu filhos meus!"

Ela praticara o suicídio por enforcamento e Édipo ao ver a cena fura os próprios olhos que sangram.

Então é chegada a hora de sair de Tebas, no cumprimento de seu castigo.

Creonte não consente que com ele, cego, vão suas filhas:

"Vai, mas deixa as meninas!

Édipo:

"Não! Não me tirem minhas duas filhas!"

Creonte:

"Não queiras dar mais ordens, obedece! Teu poder terminou."

E o Coro conclui melancólico:

"Concidadãos de Tebas, pátria nossa,
olhai bem: Édipo, decifrador de 
intrincados enigmas, entre os homens
e de maior poder - aí está!
Quem, no país, não lhe inveja a sorte?
E agora, vede em que mar de tormento
ele se afunda! Por esta razão,
enquanto uma pessoa não deixar 
esta vida sem conhecer a dor,
não se pode dizer que foi
feliz."

"Moral da história": Ninguém escapa do que está escrito a passar na vida, o destino; a busca implacável pela verdade, qualquer que fosse; os mistérios da vida humana a serem desvendados pelo simbolismo da esfinge e as benesses e os castigos a receber e a enfrentar, cada um segundo o seu merecimento. Mas, quem dita essas regras, Zeus?

Esse rigor do destino, afinal de contas não é uma constante até hoje, a despeito do livre arbítrio. O livre arbítrio interfere em experiências essenciais da vida?

ESSA RESENHA PODE SER COMPARADA COM AS OBRAS: PROMETEU ACORRENTADO de Ésquilo e MEDÉIA de Eurípedes. bastando aacessar:

TRÊS TRAGÉDIAS GREGAS